Hoje a chuva intensa tomou conta do céu, e, olhando para cima, a única imagem que vejo é o negrume da noite. Há dois anos uma tempestade parecida visitava a cidade. E eu vivi aquilo de perto.
Em uma sexta-feira muito interessante, meus planos eram, depois da aula, ir pescar, pois a maré estaria cheia. Já em sala, as horas passavam como na espera de um grande peixe, e, quando fomos avisados da saída, pediram-nos que esperássemos o temporal cessar. Enquanto isso, saí às escondidas para último andar do prédio onde eu estudava, e o mar estava realmente cheio. Desci sorrateiramente para pegar meu material de pescaria no carro. Preparei tudo lá mesmo: a vara, a linha, o molinete. Voltei ao parapeito do prédio, e, dali, arremessei a isca o mais distante que pude, mas nada aconteceu. Repeti o movimento mais algumas vezes, em vão.
Tentei uma última vez, e algo mudou. Senti um peso diferente, então, encostei meus pés com firmeza no chão, apoiei meu corpo na mureta e comecei a puxar e soltar, repetidas vezes. Liguei o recolhimento automático que havia no molinete. Era um peixe gigante, que saiu da água e trouxe o engarrafamento junto. Os carros paravam como se uma carroça atrapalhasse o trânsito. Ele cavalgava, lentamente, lutando pela vida, quando, por fim, olhou-me com aqueles olhos enormes e tristonhos, que se fossem humanos, estariam chorando. Senti tanto dó, que cortei a linha, e o maior peixe que fisguei voltou saltitante, entre os carros, ao Atlântico.
Tenho a impressão de que era uma truta, que não se contentou em viver em um rio, onde limitava seu direito de crescer. Deixá-lo na terra seria privá-lo da imensidão do oceano.






